terça-feira, 19 de julho de 2016

Sétima Semana

  Como ficou combinado foi exibido o documentário "Olhos Azuis"

"Olhos Azuis" (Blue Eyed 1996) é um documentário dirigido por Bertram Verhaag que acompanha  uma dinâmica de grupo realizada pela educadora norte americana Jane Elliot, cuja proposta é fazer com que pessoas brancas e de olhos azuis passem a ser discriminadas, exatamente em função da cor dos olhos. Em princípio, parece ser algo superficial, pois todos sabem se tratar de uma dinâmica e que é por apenas algumas horas. Apesar disso, com o correr do tempo, alguns dos envolvidos vão dando nítidos sinais de incômodo que seguem se agravando cada vez mais. A atuação de Elliot é semelhante a de um duro e severo sargento, completamente indiferente às lamentações dos participantes e inflexível ao ponto de parecer mesmo tratar-se ela de uma fria preconceituosa. Pelo que pudemos ver, ela usou como inspiração algumas técnicas que foram empregadas na Alemanha Nazista, daí, talvez, a atitude inflexível. É possível que se fosse de outra forma o resultado não chegasse a qualidade que chegou. Jane Elliot, isso fica claro ao longo do filme, foi muito influenciada pelos acontecimentos que culminaram com o assassinato de Martin Luther King. A intensa luta por direitos civis que marcou as décadas de 50/60 do século vinte nos EUA teve para ela uma significação muito forte e mais ainda com o fatídico assassinato do líder mais ponderado e que, ainda por cima, pregava a não violência.
Como isso não é uma resenha e sim um diário, fica por aqui a análise do referido documentário. Passo a tratar agora do impacto provocado pelo filme. Foi das poucas vezes em que a sala conseguiu ficar silenciosa. A partir do décimo minuto de exibição já não se ouvia sequer uma mosca voando. Ao final da sessão o professor provocou a turma para que se manifestasse. Permaneci calado, afinal, sou branco e nada crespo, a melhor coisa que tinha a fazer era ouvir. O fato é que todos pareciam estar bastante impactados pela carga dramática contida no filme e, sobretudo pela técnica utilizada na dinâmica, uma "empatia forçada" que nos deixou a todos um tanto emocionados. Houve alguns relatos de situações de racismo sofridos por alguns colegas, mas um em especial nos deixou, ao menos a mim, bastante emocionado: uma colega indígena e negra que trabalha em um hotel narrou fatos bastante repugnantes vividos por ela. Não há como permanecer indiferente a certas situações, fiquei enormemente tocado pelo drama da colega.
Um dos mitos brasileiros mais difundidos é o da democracia racial. Uma conversa mole pra boi dormir. Nunca existiu nenhuma democracia racial e nem tão pouco tolerância. Somos uma sociedade racista e dissimulada; o que não temos, ao menos publicamente, é a negrofobia  que nos EUA se manifesta com orgulho, pompa e violência.
Existe um trabalho de um cientista político (brasilianista) chamado Thomas E. Skidmore, "Preto no Branco"  que demonstra numericamente que não se pode dizer que haja mais racismo no EUA do que no Brasil. A diferença, segundo ele, está na "sinceridade" e na supracitada, negrofobia.

segunda-feira, 18 de julho de 2016

Quarta Aula - Sexta Semana -

    



Na semana que deveria acontecer a quarta aula, estávamos envolvidos coma a jornada dedicada inteiramente à SBPC, portanto, a aula aconteceu uma semana mais tarde. Era para ter levado um texto com as minhas impressões sobre a SBPC ou de algum fato importante que tenha chamado a minha atenção durante a realização desta. Não levei, pois entendi que o professor ainda definiria sobre qual assunto pertinente à  SBPC cada um deveria fazer o relato. Não sei se alguém levou, acredito que não, pois ficou marcado para a próxima aula a entrega dos trabalhos. O professor fez algumas perguntas com relação às impressões de todos sobre o grande evento e comentou depois. Uma observação acerca do microscópio acabou gerando uma conversa bem longa a respeito do mundo visível, o invisível e o que nos faz crer automaticamente que o que estamos vendo no microscópio é mesmo o que nos dizem ser. Houve mais uns comentário. O primeiro foi sobre o museu itinerante que tinha um ambiente que tentava nos dar a sensação de estarmos num útero e mais alguns compartimentos que reproduziam sons e imagens de biomas diferentes, da região abissal com mais de dez mil metros de profundidade, outra região com mais ou menos trinta metros de profundidade. Todas feitas para dar a mais próxima impressão de realidade. Alguém falou sobre a SBPC indígena, outro sobre um robô e ficou por isso.
O professor cobrou um pouco mais de questionamentos sobre o texto Universidade e Sociedade, mas ninguém se mostrou com dúvidas sobre tal tema.
Não me lembro como surgiu uma conversa sobre racismo e alguém sugeriu que víssemos uma esquete dramatizada de encontros entre pessoas que viveram casos de "bullyings" , uns como provocadores e outros como vítimas. Foi bastante impactante, apesar daquele fundo musical irritante que é feito para nos levar às lágrimas. O fato é que o assunto despertou muito interesse. O professor então propôs que assistíssemos, na próxima aula, ao documentário "Olhos Azuis". Ficou combinado isso.



Terceira Aula - Quarta Semana

Na terceira aula o professor deu início a uma série de comentários sobre o seu texto "Iniciação à Vida Acadêmica". Os comentários deveriam ser feitos a partir de indagações dos alunos sobre alguma dúvida acerca do que havia sido lido. No início houve pouca participação porque apenas uma pequena minoria havia lido o referido texto. Contudo, o professor fez algumas provocações e as perguntas começaram a aparecer aos poucos e, ao menos os que leram, confirmaram tratar-se de um texto de leitura fácil, escrito em linguagem bastante acessível e portanto, claro. De minha parte, posso afirmar que achei-o bastante útil para todos que tenham alguma curiosidade acerca da evolução das instituições que se encarregam de produzir conhecimento e ensiná-los, mas, ainda mais, para quem está ingressando na vida acadêmica, que é, obviamente, o público alvo. Eu já havia lido o texto, pois em Abril deste ano, comecei a cursar - como aluno externo - um outro CC chamado Campo das Humanidades com o professor Ronie e foi esse mesmo texto que nos foi passado naquela ocasião para que começássemos  os estudos. Ao dar início - agora desde o princípio - em um curso regular, como já disse em outra postagem, o texto foi passado como conteúdo curricular importante do CC Universidade e Sociedade, então, tratei de ler novamente - mais duas vezes - afinal, venho de um longo período de hibernação no que diz respeito aos estudos e, "recomeçar" a estudar nessa altura da vida, tudo é muito novo, diferente e é bastante comum ser surpreendido por detalhes que jamais imaginei que fossem da forma como são. Muita coisa acontece de uma forma diversa da qual imaginei, daí a recorrência de surpresas, felizmente, na imensa maioria das vezes, de maneira positiva.

sábado, 9 de julho de 2016

Segunda Aula - Terceira Semana



 

O Objeto de Importância Pessoal

Ao entrarmos na sala, logo víamos o professor vestido com um enorme chapéu colorido e provido de alguns pingentes, também coloridos. As cadeiras estavam dispostas de forma  circular para que todos pudessem se ver, mais ou menos de frente. O professor iniciou chamando a atenção para o fato de que todos já deveriam ter percebido qual era o objeto que ele havia trazido. Não restou dúvida a ninguém, óbvio, era o chapéu. Ele respondeu algumas perguntas sobre o referido chapéu e  pediu que algum voluntário mostrasse o objeto que havia trazido e explicasse as razões. Houve muita hesitação, até que uma colega tomou a iniciativa: ela mostrou uma carteira que ganhou da filha e justificou a escolha por razões sentimentais.
Logo em seguida, outra mostrou seu “smarthphone” e disse que o seu objeto escolhido era aquele, pelo que representava em termos de facilidade para sua comunicação. A terceira a se manifestar, elegeu um anel como o seu objeto de importância.

Uma colega, que estava ao meu lado, assumiu a função de "professora assistente" e passou a decidir de quem era a vez de expor o objeto e a si mesmo. 

Alguns levaram fotos de família, outros, instrumentos musicais ou as paletas com que os tocam, uma pulseira do hospital LHM na internação para um parto. O fato é que estava-se conseguindo realizar o objetivo, pois as pessoas foram se soltando.


Vou me deter ás intervenções que me impressionaram mais. 

A primeira a chamar mais a minha atenção foi uma colega que mostrou as chaves de casa e justificou que esse objeto lembrava a ela dos primeiros obstáculos para se tornar uma mulher independente. Ter saído de um relacionamento e seguir sua vida morando só, em sua própria casa. Numa casa que ela alugou para viver como senhora de si. As chaves representavam para ela a casa, a sua autonomia, maturidade e liberdade. Mostrou ainda a confirmação impressa da matrícula na UFSB e disse ser isso também um objeto de grande valor simbólico para ela.

Um colega mostrou um cordão com uma pedra – algo como uma bijuteria -  que ganhou numa noite muito importante. Foi a ocasião em que superou bloqueios que, até então, o estavam impedindo de externar seus desejos e outros sentimentos. Isso por um certo medo de rejeição e também por receio de ser hostilizado em razão de preconceitos que são tão naturalizados na sociedade que terminam por dificultar os relacionamentos com amigos, colegas, parceiros e, até mesmo, entre mãe e filho. Não sei, mas é possível que tenha sido a primeira vez que ele se expôs para tantas pessoas de uma vez - éramos 38 na sala. Ele falou bastante, não me lembro de tudo, mas foi muito forte o que disse. Não deve ter sido fácil para ele.

Outra colega levou uma pedra do rio onde esteve a dar aula naquele dia e lhe foi dada, naquele local, por uma aluna especial. Disse que a aula tinha uma semelhança com aquela que estávamos a realizar. Nesse momento, o professor detalhou alguns aspectos do modelo pedagógico da nossa universidade. Isso despertou bastante interesse e gerou algumas perguntas, o que deu margem para mais esclarecimentos e a afirmação do professor de que tinha vindo para cá atraído por essa proposta pedagógica e que tinha também, diferentemente da maioria dos seus colegas, escolhido morar em Cabrália. Nesse momento, a dona das chaves da sua vida, de uma forma muito simpática, deu-lhe (ao professor) as boas vindas.
Houve um momento de grande emoção e, percebi que não foi só para mim, mas muitos de nós ficamos embargados com a fala da “professora assistente”,  mostrou a foto do pai, falecido quando ela era ainda criança, narrou de maneira bastante pungente, lembranças, sentimentos, marcas e superações mas, ao que pude sentir, é uma pessoa feliz. 

Terceira Aula - Quarta Semana

Continuação da atividade com os objetos

Na continuação da atividade, que consumiu mais uma aula inteira, alguns objetos foram se repetindo e outros diferentes apareceram. Uma placa de licenciamento automobilístico vinda da Califórnia, fotos em "smathphones", um livro, anel, pulseira, roupa de bebê, um raque para carregar prancha de surf em bicicleta, um troféu esportivo, "smarthphone", a Bíblia apareceu duas vezes e um texto sobre o feminismo.

As intervenções que mais me chamaram a atenção foram as seguintes:

O caso de uma colega que, apesar da aparência bastante jovem, foi quem ajudou o pai a criar as irmãs mais novas. Ela levou uma foto que foi tirada num dia em que esteve hospitalizada e foi a ocasião de tomar consciência  acerca de coisas muito importantes para a família e, sobretudo, para ela e o seu papel como responsável pelas irmãs.

O texto sobre feminismo gerou uma boa discussão e foi oportunidade da aluna que o levou dizer ainda o quanto a tem ajudado o fato de participar do referido movimento. Ela disse que passou a se informar mais e com mais qualidade, adquiriu novas amizades e restabeleceu algumas que havia deixado para trás; acredita ainda que se tornou uma pessoa melhor com tal militância.

A colega - uma indígena - que levou a foto da avó, acabou gerando uma conversa interessante sobre a importância dos anciãos, sobretudo nas tradições indígenas, seus saberes, suas histórias e a influência que têm sobre os mais novos. Houve nesse momento, de outra colega, também indígena, a observação de que com o avanço das diversas igrejas sobre suas tradições, vai se modificando de forma talvez definitiva, a sua cultura tradicional.

Acredito que se os objetivos eram os que eu imaginava, fazer com que as pessoas se conhecessem melhor, trazer questões individuais para serem discutidas, enfim, humanizar mais a sala de aula, deu certo.