Como ficou combinado foi exibido o documentário "Olhos Azuis"
"Olhos
Azuis" (Blue Eyed 1996) é um documentário dirigido por Bertram Verhaag
que acompanha uma dinâmica de grupo realizada pela
educadora norte americana Jane Elliot, cuja proposta é fazer com que
pessoas brancas e de olhos azuis passem a ser discriminadas, exatamente
em função da cor dos olhos. Em princípio, parece ser algo superficial, pois
todos sabem se tratar de uma dinâmica e que é por apenas algumas horas.
Apesar disso, com o correr do tempo, alguns dos envolvidos vão dando
nítidos sinais de incômodo que seguem se agravando cada vez mais. A
atuação de Elliot é semelhante a de um duro e severo sargento,
completamente indiferente às lamentações dos participantes e inflexível
ao ponto de parecer mesmo tratar-se ela de uma fria preconceituosa. Pelo
que pudemos ver, ela usou como inspiração algumas técnicas que foram
empregadas na Alemanha Nazista, daí, talvez, a atitude inflexível. É
possível que se fosse de outra forma o resultado não chegasse a
qualidade que chegou. Jane Elliot, isso fica claro ao longo do filme,
foi muito influenciada pelos acontecimentos que culminaram com o
assassinato de Martin Luther King. A intensa luta por direitos civis que
marcou as décadas de 50/60 do século vinte nos EUA teve para ela uma
significação muito forte e mais ainda com o fatídico assassinato do
líder mais ponderado e que, ainda por cima, pregava a não violência.
Como
isso não é uma resenha e sim um diário, fica por aqui a análise do
referido documentário. Passo a tratar agora do impacto provocado pelo
filme. Foi das poucas vezes em que a sala conseguiu ficar silenciosa. A
partir do décimo minuto de exibição já não se ouvia sequer uma mosca
voando. Ao final da sessão o professor provocou a turma para que se
manifestasse. Permaneci calado, afinal, sou branco e nada crespo, a
melhor coisa que tinha a fazer era ouvir. O fato é que todos pareciam
estar bastante impactados pela carga dramática contida no filme e,
sobretudo pela técnica utilizada na dinâmica, uma "empatia forçada" que
nos deixou a todos um tanto emocionados. Houve alguns relatos de
situações de racismo sofridos por alguns colegas, mas um em especial
nos deixou, ao menos a mim, bastante emocionado: uma colega indígena e
negra que trabalha em um hotel narrou fatos bastante repugnantes
vividos por ela. Não há como permanecer indiferente a certas situações,
fiquei enormemente tocado pelo drama da colega.
Um dos mitos
brasileiros mais difundidos é o da democracia racial. Uma conversa mole
pra boi dormir. Nunca existiu nenhuma democracia racial e nem tão pouco
tolerância. Somos uma sociedade racista e dissimulada; o que não temos,
ao menos publicamente, é a negrofobia que nos EUA se manifesta com
orgulho, pompa e violência.
Existe um trabalho de um cientista
político (brasilianista) chamado Thomas E. Skidmore, "Preto no Branco"
que demonstra numericamente que não se pode dizer que haja mais racismo
no EUA do que no Brasil. A diferença, segundo ele, está na "sinceridade"
e na supracitada, negrofobia.

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