O Objeto de
Importância Pessoal
Ao entrarmos
na sala, logo víamos o professor vestido com um enorme chapéu colorido e
provido de alguns pingentes, também coloridos. As cadeiras estavam dispostas de
forma circular para que todos pudessem
se ver, mais ou menos de frente. O professor iniciou chamando a atenção para o fato de que
todos já deveriam ter percebido qual era o objeto que ele havia trazido. Não
restou dúvida a ninguém, óbvio, era o chapéu. Ele respondeu algumas perguntas sobre o referido chapéu e pediu que algum voluntário
mostrasse o objeto que havia trazido e explicasse as razões. Houve muita
hesitação, até que uma colega tomou a iniciativa: ela mostrou
uma carteira que ganhou da filha e justificou a escolha por razões sentimentais.
Logo em
seguida, outra mostrou seu “smarthphone” e disse que o seu objeto escolhido era
aquele, pelo que representava em termos de facilidade para sua comunicação. A terceira a se manifestar, elegeu
um anel como o seu objeto de importância.
Uma colega, que estava ao meu lado, assumiu a função de "professora assistente" e passou a
decidir de quem era a vez de expor o objeto e a si mesmo.
Alguns levaram fotos de
família, outros, instrumentos musicais ou as paletas com que os tocam, uma pulseira do hospital LHM na internação para um parto. O fato é que estava-se conseguindo realizar o objetivo,
pois as pessoas foram se soltando.
Vou me deter
ás intervenções que me impressionaram mais.
A primeira a chamar mais a minha atenção foi uma colega que mostrou as chaves de
casa e justificou que esse objeto lembrava a ela dos primeiros obstáculos para se tornar uma mulher independente. Ter saído de
um relacionamento e seguir sua vida morando só, em sua própria casa. Numa casa que
ela alugou para viver como senhora de si. As chaves representavam para ela a casa, a sua autonomia, maturidade e liberdade. Mostrou ainda a confirmação impressa
da matrícula na UFSB e disse ser isso também um objeto de grande valor simbólico para ela.
Um colega mostrou
um cordão com uma pedra – algo como uma bijuteria - que ganhou numa noite muito importante. Foi a ocasião em que
superou bloqueios que, até então, o estavam impedindo de externar seus desejos e outros sentimentos. Isso por um certo medo de rejeição e também por receio de ser hostilizado em razão de preconceitos que são tão naturalizados na sociedade que terminam por dificultar os relacionamentos com amigos, colegas, parceiros e, até mesmo, entre mãe e filho. Não sei, mas é possível que tenha sido a primeira vez que ele se expôs para tantas pessoas de uma vez - éramos 38 na sala. Ele falou
bastante, não me lembro de tudo, mas foi muito forte o que disse. Não deve ter
sido fácil para ele.
Outra colega
levou uma pedra do rio onde esteve a dar aula naquele dia e lhe foi dada, naquele local, por uma aluna
especial. Disse que a aula tinha uma semelhança com aquela que estávamos a realizar.
Nesse momento, o professor detalhou alguns aspectos do modelo pedagógico da nossa universidade. Isso
despertou bastante interesse e gerou algumas perguntas, o que deu margem para
mais esclarecimentos e a afirmação do professor de que tinha vindo para cá atraído
por essa proposta pedagógica e que tinha também, diferentemente da maioria dos seus colegas, escolhido morar em Cabrália. Nesse
momento, a dona das chaves da sua vida, de uma forma muito simpática, deu-lhe (ao professor) as boas vindas.
Houve um
momento de grande emoção e, percebi que não foi só para mim, mas muitos de nós ficamos embargados
com a fala da “professora assistente”, mostrou a foto do pai, falecido quando ela era ainda criança, narrou de maneira bastante pungente, lembranças, sentimentos, marcas e superações
mas, ao que pude sentir, é uma pessoa feliz.
Terceira Aula - Quarta Semana
Continuação da atividade com os objetos
Na continuação da atividade, que consumiu mais uma aula inteira, alguns objetos foram se repetindo e outros diferentes apareceram. Uma placa de licenciamento automobilístico vinda da Califórnia, fotos em "smathphones", um livro, anel, pulseira, roupa de bebê, um raque para carregar prancha de surf em bicicleta, um troféu esportivo, "smarthphone", a Bíblia apareceu duas vezes e um texto sobre o feminismo.
As intervenções que mais me chamaram a atenção foram as seguintes:
O caso de uma colega que, apesar da aparência bastante jovem, foi quem ajudou o pai a criar as irmãs mais novas. Ela levou uma foto que foi tirada num dia em que esteve hospitalizada e foi a ocasião de tomar consciência acerca de coisas muito importantes para a família e, sobretudo, para ela e o seu papel como responsável pelas irmãs.
O texto sobre feminismo gerou uma boa discussão e foi oportunidade da aluna que o levou dizer ainda o quanto a tem ajudado o fato de participar do referido movimento. Ela disse que passou a se informar mais e com mais qualidade, adquiriu novas amizades e restabeleceu algumas que havia deixado para trás; acredita ainda que se tornou uma pessoa melhor com tal militância.
A colega - uma indígena - que levou a foto da avó, acabou gerando uma conversa interessante sobre a importância dos anciãos, sobretudo nas tradições indígenas, seus saberes, suas histórias e a influência que têm sobre os mais novos. Houve nesse momento, de outra colega, também indígena, a observação de que com o avanço das diversas igrejas sobre suas tradições, vai se modificando de forma talvez definitiva, a sua cultura tradicional.
Acredito que se os objetivos eram os que eu imaginava, fazer com que as pessoas se conhecessem melhor, trazer questões individuais para serem discutidas, enfim, humanizar mais a sala de aula, deu certo.